Saindo de Recife pela BR-232, são pouco mais de 400 km até Serra Talhada, cidade que tem esse nome, pois fica aos pés de uma "serra", que possui o aspecto rajado, fraturado, "talhado".
Serra Talhada - Foto: Alexandre Fernandes
Saí de Recife com o Luciano Willadino, que estava de visita por aqui, e sexta-feira escalamos em Triunfo, com o Alexandre, que se juntou a nós para a empreitada. Resolvemos que seria melhor descer pra Serra Talhada ainda na sexta, pra poder acordar no sábado bem cedo em alguma possível nova via.
Dormimos na casa do Martim e da Mariane, que estão morando por lá e receberão escaladores de braços abertos, encontramos o Hemerson, que foi nosso guia até a parede, às 5h e seguimos de carro em direção á pedra, percorremos os 6 km da base da parede procurando onde seria o melhor lugar pra abrir uma via, ou ao menos começá-la, com as meras 15 chapas que conseguimos juntar. Imaginamos que seria pouco pra escalada que estimamos ser maior que 100 metros e bem vertical.
Escolhemos uma linha bonita, que parecia limpa e não tão difícil, além de apresentar algumas possíveis opções de fendas.
O Hemerson nos indicou o lugar pra deixar o carro e seguimos mato adentro rumo à parede. Inicialmente seguimos por uma trilha bem aberta, depois por dentro de uma grande canaleta por onde escorre água em tempos de chuva, e no final, subimos um trecho bem íngreme de terreno ruim, com terra e pedras, bem escorregadio, até chegar no capim que tem próximo à base da linha que visualizamos. Acho que andamos cerca de 30 ou 40 minutos no máximo, e já estávamos no lucro por não ter precisado varar mato de verdade.
Alexandre chegando na base
Ficamos de queixo caído com a parede, que parecia de muita qualidade e com muuuuuitas opções de belas vias! A linha que visualizamos de longe realmente era a opção mais óbvia, nos equipamos e começamos os trabalhos.
Face onde abrimos a via
Olhei pra cima e vi uma chaminé limpa, com uma grande árvore encrustada e aparentemente protegível em móvel, e um platô bom no final. Escolhi subir com todas as peças e nenhum equipamento pra fixar nada, o que foi uma boa decisão pra mim e péssima pro Luciano e pro Alexandre, que subiram carregados.Subi pela chaminé, cheguei na árvore, escalei por ela até ficar em pé nos galhos mais altos, tudo ainda dentro da chaminé, foi quando protegi com dois friends e saí pela esquerda, em um batente e depois um agarrão, voltando em seguida pra linha da chaminé, passando por alguns diedros com boas proteções e chegando à um grande platô onde montei a P1 com boas peças.
Cauí na primeira enfiada
Chamei o Luciano e enquanto ele subia deslocou um bloco de pedra que caiu próximo à base, se espatifando e ricocheteando pedaços no Alexandre, só pra começarmos o dia espertos!
Nessa hora eu já estava vendo a segunda enfiada, que continuava bem fendada, a pesar de ter alguns blocos que deveriam ser cuidadosamente contornados. Não parecia muito difícil. Segui em frente e vi que eu estava levemente enganado, não pela presença de fendas, mas por ser fácil. Toquei com bastante atenção e cuidado com os blocos, algo que deu em torno de sexto grau, vertical e com lances de oposição, chegando à um platô, que contornei pela direita, depois voltei pra esquerda e segui até outro platô sem muita dificuldade. pensei em parar ali, mas vi que pra cima a parede parecia perder inclinação, e como tinha corda disponível, segui em frente, passando por outro lance de sexto, um pouco mais estranho, até chegar ao grande platô onde montei a P2 equalizando um friend grande e um bloco laçado.

Cauí na segunda enfiada
Alexandre chegando na P2
Luciano na P2
Dali pra cima realmente parecia mais fácil, e também ficou bem bonita a linha, não haviam fendas contínuas, mas várias opções de proteção, sempre escalando em agarras. Em alguns lances dessa enfiada existem grandes bicos de pedra, que parecem pontas de pranchas de surf, dá até pra laçar algumas delas. A parede perde inclinação e finalmente eu encontro o sol, que até agora não tinha aparecido na via. Já no cume, lacei uma arvorezinha e coloquei algumas peças e puxei os dois, que vieram leves também, apenas com material pra fixar a parada do topo, que precisaríamos pra rapelar, deixando toda água e peso extra no platô. Cume!
Cauí na terceira enfiada
Luciano e Alexandre no final da via
Chegamos ao cume sem usar nenhuma proteção fixa, mas como infelizmente não dava simplesmente para descer caminhando, optamos por fixar algumas paradas pra rapel. Fixamos a P3 com duas chapeletas de argola e descemos 50 metros, com cordas emendadas até o platô. Nesse platô tem um grande bloco entalado atrás de uma protuberância rochosa, que nos deu segurança o suficiente pra laçá-lo e descer de rapel nele, sem precisar fixar grampos. Sendo assim, quem for repetir a via, aconselha-se levar 2,5 m de cordelete de abandono para substituir a fita nesse rapel. Desci primeiro com o backup folgado de um friend e depois os dois desceram. No platô da P1 também batemos um grampo P e uma chapa com malha-rápida, pois os rapéis naturais possíveis ali seriam bem inconvenientes. Puxamos a corda e concluímos com sucesso a empreitada!
Segundo rapel
Gastamos 4 proteções, das 15 que tínhamos disponível, e concluímos a via! No dia anterior sonhávamos que na melhor das hipóteses encontraríamos rocha boa para se escalar protegendo em móvel, sem precisar bater muita chapa, mas não imaginávamos que além disso, seríamos brindados com sombra na pedra por toda a escalada!
Nós no cume!
Batizamos a via de Alpinismo Sertanejo, pois tivemos direito a muita escalada em móvel de qualidade, ancoragens naturais, blocos soltos, sombra e até uma "moraina" pra subir na aproximação! hahahaha
Croqui da Alpinismo Sertanejo (clique para ampliá-lo)
No dia seguinte fomos à um pequeno bloco de pedra, de acesso mais fácil, localizado na extrema direita da serra. Lá já tinha algumas coisas antigas, segundo informações, do Alex Guardiola, um dos pioneiros aqui da região.
O bloco é incrível e tem muita opção pra abertura de vias esportivas. Escolhemos uma linha ao lado de onde haviam dois grampos batidos, os famosos "grampos do Alex", primeiro o Alexandre, depois o Luciano e depois eu batemos algumas chapas até o final do vertical, onde colocamos uma parada dupla, de lá vi que pra cima ainda tinha "outro tanto" de pedra, um diedro fácil, puxei o jogo de friends e segui até o cume, onde exatamente na linha que eu estava tinha uma parada dupla, melhor impossível!
Alexandre no início da conquista da "Pedalada Fiscal"
Luciano conquistando a "Pedalada Fiscal"
Linha da via "Pedalada Fiscal"
Acesso para ambos os setores
Essa parada provavelmente serve de rapel de acesso à um platô que tem mais abaixo, na mesma linha da parada no fim do vertical. Nesse platô tem outros grampos, que por sua vez podem ter servido pra começar a equipar a linha ao lado, que parece bem bonita e difícil.
Concluímos então uma bela via que pode ser feita completa ou só até a primeira parada, são oito costuras e mais algumas peças médias se for até a segunda parada: "Pedalada Fiscal" (VI 40m).
Às 11h guardamos as coisas e, Luciano e eu nos despedimos do pessoal e seguimos pra Brejo, onde terminaríamos nosso fim de semana estendido. Mas isso eu conto no próximo post!
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